CARCINICULTURA
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
A aquicultura produz alimentos de considerável valor econômico, o que a torna uma atividade interessante para o produtor, além do elevado valor proteico, beneficiando o consumidor. Nesse contexto, uma das categorias cuja exploração vem despertando grande interesse, é a do camarão. A produção mundial de camarões atinge 2.200.000 toneladas anuais, ressaltando-se que, atualmente, 50% dos camarões consumidos são oriundos da carcinicultura, contra apenas 6% na década passada, sendo que os cultivados em água doce contribuem com cerca de 5% de toda cultura.
Embora os camarões sejam considerados produtos de luxo, devido aos preços elevados, seu cultivo pode contribuir significativamente para a melhoria da qualidade de vida das populações de baixa renda, por meio da geração de empregos. A criação de camarões de água doce é relativamente mais simples que a de camarões marinhos, podendo ser realizada em propriedades de pequeno, médio ou grande porte, localizadas próximo ao litoral ou no interior.
Atualmente, o Brasil é o 6º produtor mundial. Segundo um levantamento da ABCC (Associação Brasileira de Criadores de Camarão), 85,5% dos produtores brasileiros são de pequeno porte e a atividade, geralmente, é secundária na propriedade. Alguns atuam em parcerias com proprietários maiores e órgãos públicos como prefeituras e SEBRAE.
A espécie Macrobrachium rosenbergii, conhecido no como camarão da Malásia, lagostim, camarão azul, gigante da Malásia ou camarão de água doce, constitui a espécie mais utilizada nos projetos de cultivo no país, principalmente, porque a tecnologia para sua criação está, relativamente, bem desenvolvida. Alcança bons preços no mercado nacional e internacional devido ao seu tamanho e ao sabor da sua carne.
A tecnologia para a produção de camarões de água doce vem apresentando um rápido e significativo desenvolvimento, o que pode gerar índices de produtividade muito elevados. Dentro dos requisitos técnicos considerados na seleção de áreas adequadas à atividade, destacam-se as condições de temperatura da água, disponibilidade de água de boa qualidade, situação topográfica, tipo de solo, entre outros. Além dessas disposições técnicas, as situações logísticas também devem ser consideradas, quais sejam: estudo de mercado, infraestrutura local, acesso e mão-de-obra .
A fim de disseminar as técnicas de todas as etapas de criação do camarão da Malásia, destacando as características biológicas, reprodutivas e os principais aspectos comerciais, o CPT – Centro de Produções Técnicas, em convênio com a FUNARBE - Fundação Arthur Bernardes/UFV e a UNESP - Jaboticabal (CAUNESP), elaborou o curso “Cultivo de camarões de água doce”, no qual você estará recebendo informações e conhecendo as pesquisas do professor Wagner Cotroni Valenti, Doutor em Ciências pelo IB – USP, diretor do Centro de Aquicultura da CAUNESP.
Após fazer o curso e ser aprovado na avaliação, o aluno recebe um certificado de conclusão emitido pela UOV – Universidade On Line de Viçosa, filiada à ABED – Associação Brasileira de Educação a Distância.
O mercado consumidor é bastante diversificado, podendo-se citar as redes de supermercados, hotéis, restaurantes e lojas especializadas em pescados. Trata-se de um produto nobre, com excelente aceitação pelos comércios interno e externo, que ainda tem muito espaço para crescimento, o que trará oportunidades aos produtores. O nacional está cada vez mais ligado, em termos de confiança, aos varejistas e em suas marcas, surgindo, então, mais uma oportunidade nesse setor
Carcinicultura é a técnica de criação de camarões em viveiros, muito desenvolvida, atualmente, no litoral brasileiro do Rio Grande do Norte.
A Carcinicultura Marinha, além de representar a única alternativa para o atendimento da crescente demanda mundial por camarões, vem se constituindo numa importante atividade sócio econômica, cujos reflexos positivos, têm favorecido sobremaneira as suas regiões de intervenções.
Dentre os crustáceos, os camarões destacam-se não só pelo valor nutritivo que possuem, mas por constituírem iguarias finas tendo consumo em larga escala, principalmente entre as nações mais desenvolvidas. Aliado ao seu excelente sabor, demonstra grande resistência na criação em cativeiro, permitindo a criação em altas densidades e, além disso, trata-se de um produto que tem um mercado crescente, uma vez que a cada dia aumenta no mundo a preferência dos consumidores por esse alimento.
Neste contexto, a carcinicultura apresenta excelente potencial de crescimento com duas características notáveis: ser uma produção do setor primário que não depende de chuvas (p. ex.: encontra nas águas salobras, principalmente da costa do Nordeste brasileiro, condições ideais para o seu crescimento) e gerar emprego permanente para trabalhadores rurais das pequenas comunidades costeiras.
A experiência acumulada nos países onde a carcinicultura vem apresentando crescimento acelerado, tem revelado os seguintes aspectos positivos:
a) econômico, no sentido de que a exploração da atividade de cultivo de camarão pode ser conduzida com bom nível de eficiência de emprego de capital, tanto por pequenos, como por médios e grandes produtores;
b) social, através do emprego maciço de mão-de-obra não especializada, representada pelos próprios pescadores artesanais, que apresentam alto índice de marginalização, com a sensível diminuição, via predação e poluição dos estoques naturais;
c) ecológico, diretamente relacionado com a conservação do meio ambiente, uma vez que essa atividade prima e exige excepcionais condições hidrobiológicas, sendo, portanto, uma grande aliada no efetivo controle das condições ambientais, especialmente quando se leva em consideração que o verdadeiro conceito do desenvolvimento sustentável, passa prioritariamente por uma administração responsável dos recursos hídricos, que deve levar em consideração a função produtiva desses ambientes, a geração de emprego e renda, e a conservação ambiental.
A evolução da Carcinicultura no Brasil
Os primeiros experimentos com o camarão cultivado no Brasil datam da década de 1970 quando o Governo do Rio Grande do Norte criou o Projeto Camarão para estudar a viabilidade do cultivo desse crustáceo em substituição à extração do sal, atividade tradicional do Estado que na época confrontava séria crise de preço e mercado com conseqüente desemprego generalizado nas áreas salineiras do Estado. Nesse período inicial, o Estado de Santa Catarina também desenvolveu pesquisas de reprodução, larvicultura e engorda do camarão cultivado e conseguiu produzir as primeiras pós-larvas em laboratórios da América Latina.
Entretanto, a realização do primeiro esforço organizado e orientado para a produção comercial do camarão confinado, ocorreu no período de 1978/1984 por iniciativa do Governo do Rio Grande do Norte (RN), que importou a espécie Penaeus japonicus, reforçou o Projeto Camarão e envolveu a EMPARN (Empresa de Pesquisas Agropecuárias do RN) para sistematizar e desenvolver os trabalhos de adaptação da espécie exótica às condições locais.
Este período caracteriza a primeira fase do camarão cultivado no Brasil, na qual predominaram cultivos extensivos de baixa densidade de estocagem, reduzida renovação da água e uso da alimentação natural produzida no próprio viveiro. Os resultados favoráveis obtidos com o P. japonicus nos três primeiros anos dos trabalhos da EMPARN (Empresa de Pesquisas Agropecuárias do RN) no que concerne à reprodução e larvicultura, e o crescimento e engorda, serviram de base para a mobilização dos mecanismos federais de assistências técnica e financiamento da época em apoio à iniciativa privada.
Com a realização em Natal, em setembro de 1981, do Primeiro Simpósio Brasileiro sobre Cultivo do Camarão, houve uma ampla divulgação do desempenho da espécie importada do Japão e foram instaladas as primeiras fazendas de camarão no Nordeste. A decisão da Companhia Industrial do Rio Grande do Norte (CIRNE) de transformar parte de suas salinas em viveiros de camarão constituiu um estímulo importante para outras iniciativas do setor privado.
Além da falta de um plano muito mais abrangente de pesquisa e validações tecnológicas, causa que levou ao fracasso a domesticação do P. japonicus depois de resultados iniciais promissores, esteve vinculado ao período de sua adaptação (1978/1983), que coincidiu com uma das estiagens mais prolongadas do Nordeste criando condições excepcionalmente favoráveis para o seu bom desempenho. A partir de 1984, com o encerramento do prolongado período seco e a ocorrência de chuvas intensas e das apreciáveis variações de salinidade nas águas estuarinas, ficaram evidenciadas as intransponíveis dificuldades para assegurar a maturação, a reprodução e a própria sobrevivência do camarão P. japonicus no nosso ambiente tropical. Em 1985/1986, já estava descartada a viabilidade de se desenvolver uma carcinicultura regional com a referida espécie.
Apesar do insucesso, esta primeira fase deixou alguns pontos de apoio que serviram de estímulo para continuar os esforços de viabilização da carcinicultura comercial no Brasil. Contando com fazendas e laboratórios de camarão instalados e com experiência acumulada em procedimentos e práticas de produção, os técnicos e produtores envolvidos no setor partiram para a domesticação das espécies nativas (L. subtilis, L. paulensis e L. schimitti), período este que passa a constituir a segunda fase da evolução da carcinicultura nacional. Neste caso, alguns cultivos passaram a adotar uma maior densidade de povoamento (de 4 a 6 camarões por m² de espelho d’água), taxas de renovação de água de 3% a 7% e alimento concentrado. Ficou caracterizado nesta fase o primeiro intento de estabelecer um sistema semi-extensivo para produzir o camarão confinado no Nordeste.
Durante dez anos de trabalhos de domesticação das nossas espécies, nos quais se demonstrou a viabilidade de importantes aspectos como maturação, reprodução e larvicultura e se trabalhou intensivamente em manejo de água e de solo de fundo dos viveiros, o desempenho produtivo dessas espécies não ultrapassou as médias de 400 a 600 kg/ha/ano. Estes níveis de produtividade traduzidos em termos financeiros mostraram-se apenas suficientes para cobrir os custos diretos de produção das fazendas com melhor manejo. Em um bom número de casos, nem sequer se chegou a este nível de cobertura financeira. Tal situação comprometeu a rentabilidade do agronegócio levando à desativação de algumas grandes unidades produtivas da região.
As observações resultantes dos trabalhos de validação tecnológica, desta segunda fase, indicam que a principal restrição que limitou a produtividade das espécies nativas esteve relacionada com os seus requerimentos protéicos e a não existência de alimentos concentrados que atendessem às suas exigências. Nesta fase, ficou demonstrado o bom potencial das três espécies brasileiras e a necessidade de um programa de pesquisa básica e aplicada para melhor caracterizá-las e preservá-las bem como para investigar a fundo sua biologia e reprodução, e seus requerimentos nutricionais.
A decisão de descontinuar a domesticação das espécies silvestres nacionais como opção para viabilizar a carcinicultura no Brasil, levou o grupo pioneiro de técnicos e produtores a buscar solução com a espécie exótica Litopenaeus vannamei, ainda na década de 1980. As importações pós-larvas e reprodutores, e os trabalhos de validação se acentuaram nos primeiros anos da década de 1990. Esta nova situação caracterizou a terceira etapa da carcinicultura brasileira. O critério básico para a adoção da nova espécie, foi o fato de ser a mesma já cultivada com êxito no Equador e Panamá e haver demonstrado capacidade de adaptação aos ecossistemas de diferentes partes do hemisfério ocidental.
A partir do momento em que laboratórios brasileiros dominaram a reprodução e larvicultura do L. vannamei e iniciaram a distribuição comercial de pós-larvas, o que vem a ocorrer na primeira metade dos anos 1990, as fazendas em operação ou semiparalizadas adotaram o cultivo do novo camarão obtendo índices de produtividade e rentabilidade superiores aos das espécies nativas. As validações tecnológicas foram intensificadas no processo de adaptação do L. vannamei, sendo válido afirmar que a partir de 1995/1996 ficou demostrada a viabilidade comercial de sua produção no país.
O L. vannamei é, portanto, a única espécie que atualmente se cultiva no Brasil. Nos últimos cinco anos, os resultados dos trabalhos realizados no processo de sua domesticação convergiram e continuam convergindo cada vez mais para a estruturação de um sistema semi-intensivo de produção que é próprio para as condições dos estuários brasileiros. Este sistema caracterizado pelo uso de alimentos concentrados, aeradores mecânicos e densidade de povoamento variando entre 20 a 50 pós-larvas
Impactos sócio-ambientais da carcinicultura
A carcinicultura, que tem sido uma das práticas econômicas em franca expansão nas últimas décadas no mundo, especificamente nas regiões de manguezais, também têm sido fortemente criticada. Estudos recentes evidenciam que a pressão sobre o ecossistema do mangue, em atendimento às exigências de instalação de piscinas de carcinicultura, têm comprometido o equilíbrio ecológico dos mesmos.
A introdução de espécies exóticas, entendidas essas como não nativas das regiões em que se encontram, representam risco significativo ao equilíbrio ecológico preexistente. O controle de tais espécies se faz vital, uma vez que, liberados no ambiente, podem entrar em disputa com espécies nativas, alterando-se a configuração ecossistêmica precedente. O problema é que tal controle é praticamente inexistente, ou seja, não há um controle real de segurança para que não ocorra a introdução dessas espécies no meio ambiente.
A carcinicultura demanda instalação de piscinas artificiais, com a consequente supressão da vegetação nativa dos manguezais. O impacto imediato é sentido em curto, médio e longo prazos, pois por tratar-se de intervenção agressiva (extirpação da vegetação até a raiz, o que impede a regeneração da mesma), afeta-se o equilíbrio biótico das demais espécies habitantes, tais como alevinos de peixes e crustáceos, bem como retira-se uma barreira natural às altas marés, podendo ocasionar impactos nas populações humanas próximas. Além disto, os efluentes dos viveiros provoca a contaminação das águas por fungicidas. Outro problema é a salinização dos lençois freáticos, impossibilitando o consumo por parte das populações ribeirinhas. Além da salinização dos lençois freáticos ocorre também a salinização do solo nos arredores das fazendas, impossibilitando a agricultura nesses locais.
Outro aspecto, de caráter social, refere-se ao impacto de tais práticas econômicas junto às populações que tradicionalmente sobrevivem dos recursos do mangue. Uma vez que a seletividade por regiões mais ricas em recursos naturais é visada para o bom sustento do empreendimento, entra-se em conflito com os extrativistas preexistentes, que por encontrarem no mangue seu sustento, dominam conhecimentos práticos acerca do mesmo, entendendo sua dinâmica e características. Tais situações têm ocasionado protestos e até mesmo mortes (para maiores referências pesquisar Declaração de Choluteca; ações Greenpeace carcinicultura; Martinez Alier)Os comflitos sociais entre carcinicultores e comunidades tradicionais são comuns. Os primeiros buscam o lucro e o crescimento a qualquer custo, as comunidades por sua vez querem apenas preservar os manguezais para assim obter sempre o seu sustento, mantendo uma relação harmoniosa com o manguezal.